A Máscara de Epitácio Pais

Sobre a mormaceira de uma tarde sufocante caíam as primeiras tintas de escuridade, quando Zoideva apareceu com uma troixa nas mãos na casinha onde Gervásio morava.

- Eh! Gervásio!

Estava um tanto embriagado, mas era costume. Ou deixava de ser o Zoideva, factor comum das rixas e tabernas daquelas regiões mineiras. Chegara a um ponto em que não oferecia perigo. Queria ir à festa que o António dava à malta de Darguém para quebrar a monotonia das noites de murdanga, harmónio e grunhidos de macacos, com um baile de orquestra, bebida de fora e o mais que fosse preciso.

- Você ouviu? O mais que é preciso. Ah! Ah! Tem graça. Eu quero muitas coisas. O António não é capaz de mas dar. Ah! Ah! Mas vai ser de truz a festinha. E sem pagar um poiça. O António é incomparável.

Insistiu com Gervásio para que o acompanhasse:

- Vão lá umas cristãs da cidade, gente decente. Há-de gostar de as ver e não se arrependerá da caminhada. Darguém. Você calcule onde é. Não é muito longe.

Gervásio estava moído. Tinha andado o dia inteiro em vaivéns sob uma torreira de matar, indo do embarcadoiro à mina, fiscalizando os trabalhos, ralhando com a preguiceira dos homens para que o patrão visse que tudo estava em ordem. Mas começou a vestir-se para matar o tédio crónico que vinha da poeira vermelha, da água barrenta, de tudo. À noite, as máquinas paradas, descia sobre a terra um silêncio pegajoso. Não havia poesia nem nas noites de luar, e nada desfazia o torpor de que se envolviam os homens e a excessiva cautela das mulheres.

- Você há-de ver que o baile deles é qualquer coisa que marca. O António é pessoa de mão larga. É muito amigo da arraia-miúda, o que aliás é muito natural, pois é à custa dela que amassou fortuna. Mas nem todos são assim. Veja o Ratanlal, que é uma besta. Seja. Há-de também experimentar uns fulminantes que ele prepara e em que é mestre.

- Fulminantes? O que é isso?

- Uma mistura boa mesmo de todas as bebidas que se conhecem. O António lá sabe as proporções. Toma-se uma dose e começa logo o sangue a ferver que é um entusiasmo danado. Eu aguento uma dúzia. Agora toca a mudar a vestimenta. Eh! Eh!

Cobriu a sujidade das calças e camisa com uma capodd vermelha de ferir a vista. Esvaziou uma garrafinha que trazia consigo, mascou uma boa porção de folhas de betle, pôs no rosto uma máscara burlesca e saiu com o amigo, tomando o trilho que ia dar a Darguém, atravessando meia dúzia de riachos e oiteiros escaveirados por mineiros.

O escuro cobria já os caminhos. Zoideva, porém, cortava a espessidão como se passeasse numa avenida iluinada, falando sempre, voltando-se amiúde para o companheiro, que ficava atrás com receio dos espinheiros que lhe embargavam os passos e que, retesados por mão rude, lhe açoitavam o corpo.

- Ah! Ah! Você tem medo de cobras? Não tenha receio. Dantes viam-se muitas. Isto aqui era um viveiro delas. Grossas como troncos de arequeiras, silvando a qualquer hora do dia. Agora, com as minas, elas vão sumindo. Matam-nas. Coitadas. Têm direito à vida. O raio é se mordem, porque a mordedura é fatal. É tirar logo o sangue para fora e cobrir -se de certas folhas que eu conheço. Já salvei muitas pessoas. Mordem se lhes pisamos o corpo. Se não, são inofensivas. São como eu. Não suporto que me pisem e que me tirem o que é meu. Não suporto. Concorda? É isso! Não gosto de entrar na vida alheia. Nunca entrei. Então , torno-me pior que as cobras, com mais veneno que elas. Não acha que tenho razão? Fui sempre assim e ninguém me pode condenar por isso. Estamos quase em Darguém. Já se pode ver a claridade. Uma hora apenas.

- Uma hora!

- Um pouco menos. Mas há-de valer a pena. Eu lhe apresento uma moça com quem você passará bom tempo. E também vê as máquinas que o António encomendou da Europa. Ah! Ah! Você fica atrás. Quer que o carregue às costas?

- Qual carregar!

Que queria o Zoideva na chinfrineira de Darguém, ele que nunca dantes mostrava gosto por diversões daquela natureza? Disse que fora convidado pelo António para uma dança de tipo regional em nome dos citadinos e que depois tinha de ir a Zoramim visitar um parente que lá morava. Gervásio ignorava que ele soubesse esboçar trejeitos coreográficos, e começou a duvidar que o que o trazia preso a Darguém era a Catarina, uma moça atiradiça que ele namorava e que agora lhe voltava as costas em favor de um Thomas, foragido de Madrasta e negro como carvão.

- Você sabe dançar, Zoideva?

- Dançar? Eu já dancei uma vez como vocês, cristãos, o fazem. Dois passos para frente, dois passos para trás, não é assim?

- Fica-se no mesmo sítio, homem.

- Então são três para frente e dois para trás. Mas já dancei com uma rapariga que era minha amiga. Ela disse que eu era o maior dançarino da sala.

- Catarina?

- Qual Catarina! Julga que só a conheço a ela? Catarina pertence ao passado. Agora tenho outras. Era uma rapariga que eu queria que você tivesse visto. Isto aqui era assim... Uma verdadeira maravilha. Morreu esmigalhada por um rochedo em Silti. Não teve tempo para soltar um gemido.

Caminharam em silêncio durante algum tempo. As luzes de Darguém iluminavam a atmosfera pesada de Maio, as nuvens baixas. O vento parado. Zoideva, forçado pelo calor, erguera o pano à altura da cinta, numa aparência grotesca de hermafroditismo, exibindo as pernas robustas, os calções e a saliência dos seios postiços.

Em Darguém, quando viram a máscara e as formas de mulher postas exageradamente em evidência, foram recebidos com uma hilaridade ruidosa. A orquestra tocou a marcha. Todos queriam saber quem era o mascarado. E o Zoideva, não podendo conter-se, antecipou, contra as regras estabelecidas, o seu número de dança, dando pulos de matar de riso as damas da cidade.

- Que tal? - Aproximou-se de Gervásio para lhe pedir a opinião.

- Esplêndido. Não esperava tanto êxito. Você é um dançarino consumado. Para mim, foi uma surpresa.

- Verdade?

- Não tenha dúvida.

- Bem. Muito bem. Mas vejo que você não bebe mesmo nada. Beba e vá dançar. Olhe para aquela de tranças. É boneca, não é? Danço com ela agora. Sei que o patrão tem os olhos postos ali, mas não avança muito. A outra, ao lado, é do Pedrito. Do Pedrito, é maneira de dizer, pois também anda com Alberto. Aquela de amarelo parece santinha. Descobriram-na com o maquinista cá dos sítios numa destas manhãs. Veja o oiro que traz nas mãos. O pai andou a carregar até às relhas o minério que descobriu num buraco junto da casa. Carregou-o ele mais as filhas. O minério era excelente. Vendeu-o ao Premnath. Hoje possui uns bons milhares. Pode aproveitá-los se quiser. Esse outro que está a beber com o António é o Caetano, um novato, um parvo. Amealhou uns poucos de milhares no contrabando de relógios, canetas e talvez oiro. Quis meter-se no negócio de minas e comprar o cerro do Premnath. Eh! Eh! O cerro não valia nada. Isto já eu sabia. O Premnath abrira uns buracos no solo e enchera-os com amostras. Veja só. Quem o salvou foi uma tipa que está lá dentro e que já se sabe... O homem andou com muita sorte, senão dava um tiro na cabeça como o Daruwalla, que enterrou milhares nos contrefortes  de Tamli sem encontrar sinal de minério. A mulher? Foi-se embora. Quem ficou é a filha. É uma vergonha. Mas, enfim... O que é isso? Você não bebe? Quem não bebe não pode dançar. Tire proveito, homem! Por sinal é um conhaque dos melhores. Porque não convida uma delas? Note que a da frente não pára de lhe fitar os olhos. Não seja doido.

Gervásio viu-o depois, durante todo o tempo que durou o baile, em colóquios alegres, pondo em alvoroço as mulheres, puxando o cabelo às raparigas, bisando o saltarelo em toda a parte e, o que era o pior, emborcando à maneira de água, copos e copos de vinhaça. Pelos modos, já não ressentia nem o desdém de Catarina, com quem entrou a conversar amigavelmente, nem o triunfo de Thomas, que agora já lhe sorria numa aproximação de confrades no mesmo grau de bebedeira.

- Foi tudo muito bom - disse Zoideva, tornando a aparecer minutos mais tarde. Estou contente. Todos me felicitaram pelo sucesso. Perguntaram-me onde aprendi a dançar tão bem. Ora...

- A Catarina não te disse nada?

Olhou para Gervásio com modos triunfantes e com um sorriso altivo a brincar-lhe nos lábios:

- Disse-me que teria prazer em dançar comigo. Fiz-lhe significar que era tempo perdido. Não minto. Espere. Vou beber mais uma dose.

Voltou pouco depois.

- Engana-se se julga que quero reatar amizades com ela. Eu cá sou assim: digo o que sinto. E sou homem de uma palavra. Se andasse à míngua de mulheres era diferente. Mas, mulheres, felizmente, não me faltam, nem constituem problema. Olhe para esta feira. É só escolher...ahn? Acha ou não acha?

Foi quando o baile chegou ao fim, às cinco, que Gervásio andou à procura do Zoideva, que não aparecia. Mas era mister que o descobrisse, pois não sabia voltar sozinho para casa. Lembrou-se de que falara num parente em Zoranim. Por isso, acompanhado de uns ganhões, pôs-se a caminho do lugarejo.

O céu estava a clarear. O frio vinha descendo em lufadas cinzentas, pesadas, correndo, mandando embora os últimos resquícios de uma noite tórrida e sufocante. Pairavam no ar bafos de motores de mistura com os odores matutinos de folhagem e silêncios tristes de fim de festa.

Pobre Zoideva! Viram-no caído numa concavidade de rocha, à beira do caminho de Zoranim, com a capodd vermelha fazendo contraste com o verde do arvoredo e o fosco da hora. A máscara, oh! a máscara continuava a sorrir grotescamente para Gervásio. Da abertura da boca e das narinas saía um vómito amarelado e pastoso que escorria lentamente pela blusa azul, entre os seios postiços, que tinham o frescor voluptuoso da virgindade. Estava morto.

Fizeram-lhe uma cremação singela depois das formalidades do regedor, que se limitou a apalpar-lhe, com os dedos apertando o nariz, as pernas rígidas e frias, sem se atrever a tirar-lhe a máscara, que agora parecia sinistra a através dos buracos da qual dois olhos baços e sem vida olhavam para eles com a fixidez hipnótica  da morte.

As chamas subiram até as copas das árvores fazendo-as balançar, e o fumo acre, impregnado de carne queimada, invadiu o labirinto dos arbustos. Os homens tinham-se sentado para se aquecerem, estendendo as mãos para o fogo, indiferentes ao crepitar lúgubre e conversando.

- Foi-se embora. Morreu estupidamente, sem graça. Deve ter sido uma congestão. Era de esperar. Beber como touro... Vão sentir muito a falta dele. Tinha piada, o coitado. Bom operário, ainda que femeeiro. Quem o não é. Quem sofrerá mais são as tabernas pelo que lhes fica a dever e pelo consumo futuro. Onde teria ido arranjar uma máscara tão cómica que até fiquei a soltar risadas ao vê-la na ravina? Enfim, está morto, reduzido a cinzas. Nem parece verdade. Mas estão ali as cinzas. Que pequena quantidade! Quem irá recolhê-las, para as lançar ao rio? Não tinha parentes. Algum varzino atirá-las-á para sua várzea. Tem graça, o Zoideva transformado em um pouco de arroz. Ou irão correndo com as chuvadas para muito longe, para o rego aberto por Dadajan, onde os operários todas as manhãs se aliviam.



*   *   *



Gervásio não queria lembrar-se daquilo, mas enxotar a imaginação excitada para longe do espectáculo da véspera! Contudo, as imagens da cena presenciada pegavam-se-lhe à cabeça com persistência torturante. Bebera durante todo o dia para esquecer o macabro da cremação, do corpo mal coberto por troncos verdes que se recusavam a pegar fogo, apagando-se aos esguichos lôbregos do assado. O cheiro da carne e do unto que se queimavam fustigava-lhe as narinas, parecendo-lhe que o ar puro dos campos tinha o odor da fumarada da ravina de Zoranim. Afogara-se no fenim a ver se apaziguava o estômago revolto a amansava a memória que, não se sabia por que estranho paradoxo, se voltava para aquilo que a macerava. Não pudera engolir nem um pouco de comida, sorver uma xícara de chá. Os operários tinham-se rido dele ao vê-lo naquele estado lastimável, mal podendo aguentar-se nas pernas vacilantes, transportando-o quase nos braços até a casa, onde ficara a dormir. Acordara no meio da noite com a sensação de estar a cair num vácuo infinito, que tentara preencher com os restos que ainda havia na garrafa.

Pela manhã, preparou um pouco de café e bebeu-o. A bebida aliviou-o quase nada atirando-o para a meia sonolência, obrigando-o a fechar os olhos, que ardiam. Foi quando o Zoideva entrou e, aproximando-se da cama, tocou-lhe mansamente os pés. A sensação pareceu-lhe o contacto de uma brasa queimando a pele fria.

- Gervásio - disse, - preciso de cinquenta rupias. Estou sem poiça. O Ratanlal deve-me uma semana, mas não lho posso pedir. Você sabe porquê. Compreende a minha situação. Não podia ter tido outra saída. Não lhe disse que era como as cobras? É o meu feitio. Mas o Gervásio não me há-de trair. Vou-me embora amanhã. Ela vai comigo, a Catarina. As fronteiras estão fechadas, mas eu sei um caminho. No entanto, preciso de cinquenta rupias para as primeiras despesas. Peço-lhe que mas adiante. Um dia lhe pagarei.

Gervásio meteu a mão no bolso das calças e, como se estivesse a sonhar, sem abrir os olhos, entregou-lhe a carteira, caindo depois num sono profundo.

E Zoideva, fechando a porta, foi-se embora para nunca mais.




The short stories of the Goan author Epitácio Pais (1928 - 2010) are deeply rooted in the complexities and contradictions of the period in which they were composed, the decade following the 1961 invasion and annexation of Goa by India, which liberated the territory from Portuguese colonial rule. Pais's stories appeared in the Portuguese-language newspapers and radio programs that survived the change of administration and the de facto switch from Portuguese to English as Goa's dominant medium of expression. These media outlets have all now disappeared. Indeed, the Portuguese language is at present almost inexistent in Goa, leaving modern Goan readers cut off from the Lusophone section of their literary inheritance.

Several of Pais's stories are set in the mining regions of Goa. From the 1950s onward the territory experienced a vast expansion in the extraction of ore - mainly iron and manganese - from the hinterland of the territory. This industrial growth caused enormous upheaval. Fast money changed social mores, installed new hierarchies of power and led to the swift degradation of environmental conditions. It is against this social, political and ecological backdrop that Pais tells his short yet powerful tale of pretence and betrayal, ruthlessness and friendship. One of the characteristics of Goan society is the peace in which its Hindu and Christian populations co-exist for the most part, a harmony represented by the friendship of Gervásio and Zoideva, the two central characters in “The Mask”, whose relationship appears to be the only unambiguous one in the story.